Mulher zerada

Saída da maternidade. Quanta felicidade…

Uma linda menininha toda de rosa com lacinho na cabeça. Outro, um machinho, que, como reza tradição, usa cor azul. E, para completar, um par de gêmeas.

Todas as famílias muito felizes: os avós, os tios e as pretendentes à madrinha. Tudo perfeito!

Já a outra, tem uma realidade diferente… É a sombra que passa invisível na saída da maternidade, com as mãos vazias e o peito a chorar. Caminha sem sorrisos, sem parentes, sem madrinhas para disputar o cargo e, enfim, sem felicidade.

Ela sofre as mesmas dores que, às vezes, são ainda piores (para falar a verdade, no final, a dor é sempre maior). Pois não sabe o motivo porque perdeu o bebê. Só sofre e chora. Ela não deu causa à perda mas, mesmo assim, sente-se culpada. Sofre um vazio imenso na barriga, nos seios, nos braços e na mente.

Homens de bem

Não quero ética, nem moral.

Quero a Filosofia dos bares das ruas, das putas, dos enjeitados, dos marginais.

Quem sabe se, com eles, eu aprendo algumas “manhas” e truques para conseguir viver neste momento caótico, cheio de sujeitos “espertos” e que se acham “seres superiores”.

Onde que esses rejeitados se refugiam em seus momentos de dor?

Em qual lugar de suas mentes?

Ah, os ébrios… Talvez sejam melhores companhias do que os “masturbadores metais” e os “burgueses hipócritas” fingindo-se de homens de bem.

Dentro da caixa

Estou dentro da caixa com todos os outros.

Eles pensam de forma igual, mas me sinto diferente.

Isso me faz muito mal. Muito mal…

Não somente o fato de ser diferente, mas também o de estar dentro da caixa.

Se fico, não me adapto. Se saio, ficarei só. E ainda terei de sofrer constrangimentos, humilhações…

Outros conseguiram (sair). São fortes, mas eu não. Sou sensível demais. Pelo menos é o que acho.

Preciso saber o que faço. Preciso de ajuda. Sozinha não consigo, creio eu.

Estou me sentindo muito fraca e confusa. São muitos pensamentos passando pela cabeça rapidamente, quase que ao mesmo tempo, e isto me enlouquece.

Meu coração disparou. Estou com medo. Quero que chova. O dia está lindo. Que merda!

Matando Deus

Se Deus é ou está em tudo, estamos matando Deus.

Quando cortamos uma árvore, quando assassinamos as baleias, quando entupimos nossas praias de óleo e, enfim, destruímos sua criação, matamos o seu Eu ou Essência.

Foto: Agência Brasil – http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-10/consumidor-pode-remarcar-viagem-praias-atingidas-por-mancha-de-oleo?amp

Indo dormir

Estou com sono. O dia não foi cansativo e muito menos monótono.

Passei mal o dia inteiro. Essa tem sido a minha rotina diária desde que iniciei o “desmame” do Rivotril.

Meus dias têm sido um inferno. Sei que é necessário mas doi.

Doi muito e preciso de algo. Ou do Supremo para segurar em minhas mãos e dizer “mais um passo”.

Às vezes, quando olho minhas veias do punho, imagino o calor dentro delas: o vermelho do sangue, a pulsação e as batidas do meu coração como se seguissem ordens. O corpo tão perfeito, biologicamente divino…

Quero deitar e dormir.

Pareço incoerente, não escrevendo coisa com coisa. Mas dane-se.

A onda

Estou passando pelo deserto, mas não tem ninguém comigo neste momento para me ajudar na condução e me consolar.

A solidão corrói a mente já carcomida pelos contínuos anos de medicação e pela dureza do mundo.

Às vezes caio e, quando levanto, é mais uma ferida a sangrar.

Estou cansada, mas meus olhos não fecham. Estes temem não mais se abrir [se fecharem]. Talvez por medo da dor ou da loucura.

Ela está chegando – a onda. Ela bate e machuca. Sei que estou no deserto, mas ela me persegue aonde eu vá.

Não dá mais.